• PET Nutrição

Visão geral da introdução alimentar

Por Fernanda Delgado e Luisa Bittencourt


A introdução alimentar é conhecida pela apresentação dos primeiros alimentos, sólidos e líquidos à criança, com exceção do leite materno, apresentando-a um novo universo de cores, sabores, texturas e cheiros. Estudos mostram que os primeiros 1000 dias das crianças são decisivos, contando 270 dias da gestação e 730 dias referentes aos dois primeiros anos da criança, podendo impactar no seu desenvolvimento e refletir a saúde da sua vida adulta. Além do crescimento em altura e peso, é uma época de formação de hábitos alimentares e novos aprendizados (Mozetic RM et al, 2016). Até os 6 meses de idade, o leite materno é o alimento ideal para a criança. Porém, depois dessa idade, a criança precisará começar a receber outros alimentos, além do leite materno, já que o leite sozinho não será capaz de prover todos os nutrientes necessários para o lactente (BRASIL, 2002).


A escolha dos alimentos é essencial para uma alimentação saudável nessa etapa, assim como em todas as fases da vida. Conhecer os níveis de processamento e os grupos alimentares funcionam como facilitadores nessa escolha do consumo alimentar. Dessa maneira, se a comida que é preparada em casa é saudável, pode ser consumida inclusive pela criança, podendo haver alteração na consistência conforme a idade da criança que o alimento será oferecido. Além disso, é fundamental valorizar a construção do momento da alimentação em família, assim como uma boa relação com o alimento que é constituído a partir da introdução alimentar. Hábitos como comer junto a mesa sem interferência de televisões e distrações, valorizar o momento de cozinhar e o cuidado da alimentação da criança não apenas pela mãe, mas por todos os membros da casa podem ser boas estratégias para uma introdução alimentar saudável (BRASIL, 2002).


Durante a amamentação sob livre demanda o bebê desenvolve o autocontrole de ingestão de alimentos de acordo com a suas necessidades, através de sinais de fome e saciedade. O mesmo deve ser respeitado durante à introdução dos alimentos. Geralmente os responsáveis têm uma expectativa muito maior sobre a quantidade de alimentos que bebê deve ingerir e, quando ela não é alcançada os pais pode gerar ansiedade nos pais ou cuidadores, além disso, uma alimentação excessiva e forçada pode causar um comportamento futuro de descontrole sobre os sinais de fome e saciedade levando ao sobrepeso (BRASIL, 2002).


Nos dois primeiros anos de vida não é recomendado ingerir nenhum tipo de açúcar, incluindo açúcar mascavo, demerara, nem mesmo melado e mel. Preparações que tenham açúcar de adição como ingrediente, como bolos, doces, inclusive ultraprocessados, devem ser restringidos nessa etapa da vida. Em relação ao consumo de mel, não é recomendado para essa faixa etária devido a quantidade de açúcar e principalmente por ser passível de contaminação por bactérias patogênicas. Crianças nessa idade são menos resistentes à bactérias, podendo desenvolver a doença do Botulismo, que pode causar paralisia de membros inferiores e problemas na respiração, gerando danos a criança (BRASIL, 2002).


A interação com a criança durante a refeição


A forma de oferecer à refeição a criança pode determinar o início de hábitos alimentares saudáveis, a interação entre a alimentação e os hábitos que a acercam devem ser construídos nos primeiros anos de vida. Estratégias, como conversar sobre os alimentos que estão no prato, comê-los também para dar o exemplo e motivar seu consumo podem ser benéficas na hora da refeição. Por outro lado, dar alimentos em resposta a choro, má- comportamento, “birra” ou através de chantagens e punições, contribuem para o desenvolvimento de uma relação ruim com alimento. É importante também não ceder às tentativas de manipulação da criança para trocar os alimentos saudáveis por outros não saudáveis, não utilizar recompensas ou mascarar os alimentos. É necessário lembrar que a relação com o alimento começa nessa idade, e todos em volta da criança devem corroborar para esse relacionamento saudável evitando uma má alimentação no futuro.


Os pais devem ficar atentos para distrações já que não é recomendado que a criança faça suas refeições em frente a televisão, celulares, computadores ou tablets, já que isso pode gerar desinteresse pelo alimento, ou fazer com que o seu consumo aconteça de maneira automática, prejudicando o aprendizado, quantidade e qualidade dos alimentos. Outro aspecto ligado à exposição excessiva da criança a televisão está nas propagandas infantis de alimentos ultraprocessados (industrializados desequilibrados nutricionalmente) que costumam à exercer grande influência nas crianças por estarem associadas a personagens de desenho ou brinquedos.


Estratégias de introdução alimentar


Segundo o guia alimentar para menores de dois anos, a introdução de alimentos deve ser lenta e gradual, com alimentos de consistência pastosa e feita junto ao aleitamento materno. Para crianças amamentadas exclusivamente com leite materno. aos 6 meses deve-se introduzir pela manhã a primeira papa de frutas, a qual deve ser feita com frutas amassadas com garfo e sem adição de açúcares. Após a oferta da primeira papa, se oferece o leite materno, assim como nos intervalos entre as refeições da introdução alimentar. Após 15 dias, deve-se oferecer a segunda papa de frutas, a qual pode ser mais elaborada, portanto ela pode ser composta de cereais e mais frutas junto. Aos 6 meses e 25 dias, deve-se introduzir primeira papa salgada, sendo composta por carboidratos, hortaliças, uma fonte de proteína e leguminosas, com poucos temperos e cozidos com pouca água. A segunda papa salgada é implementada aos 7 meses. Nos 8 meses, pode-se introduzir os alimentos que a família consome, desde que sejam amassados e não tenham muitos temperos e não sejam picantes (pimenta, gengibre e noz moscada.) Após os 8 meses, além dos alimentos da família pode-se ofertar lanches como frutas, mingau e cereais, pães e biscoitos sem recheio, iogurte natural ou coalhada caseira, batata ou aipim cozido. Por fim, após o primeiro ano pode-se introduzir alimentos da dieta da família na própria consistência no qual foram preparados. Para crianças que estão em aleitamento artificial, com fórmulas ou leite de vaca, no primeiro semestre, à introdução de alimentos segue o mesmo padrão citado acima, porém, em períodos diferentes, como descrito abaixo (Figura 1) (BRASIL, 2002).


Figura 1: Esquema de introdução alimentar do Guia alimentar para crianças menores de 2 anos.


Algumas estratégias para o consumo alimentar das crianças surgem nas últimas décadas, principalmente a BLW (baby led weaning) que aparece como preferida na introdução alimentar dos bebês, em que se sugere que o bebê a partir do 6º mês já tem a capacidade de locomoção de alimentos até a boca (Rapley et al, 2008). Em um estudo feito por Brow e Lee, mostrou que bebês adeptos ao método BLW eram mais propensos a consumir os alimentos que a família consumia, além de compartilhar o momento da refeição. Além do método, foi relatado a forte participação familiar na introdução de alimentos, o que corroborou para um melhor resultado (Brow et al., 2011). Por mais que o BLW pareça uma estratégia benéfica alguns pontos devem ser levados em consideração antes da sua escolha para a introdução alimentar. O BLW é uma estratégia complexa, que exige tempo, disposição e atenção dos responsáveis, uma vez que, faz sujeira e aumenta o risco de engasgamento. Além disso, à utilização dessa técnica dificulta à ingestão recomendada de ferro e valor energético, podendo prejudicar o crescimento e desenvolvimento (DANIELS et al., 2015).


Com isso, entende-se que a introdução alimentar ocorre quando a criança está fisiologicamente e psicologicamente pronta para receber uma alimentação e conhecer as diferentes texturas e sabores dos alimentos. Para isso, os pais devem ter calma e paciência, afinal é algo inédito na vida do bebê. O primeiros mil dias são decisivos em toda a trajetória da relação com o alimento que essa criança terá por toda a vida. Oferecer o leite materno exclusivo até os 2 anos de idade auxilia ainda mais as necessidades nutricionais do bebê, dentre outros inúmeros benefícios antes da chegada dos primeiros alimentos. É uma fase difícil, porém deve guiar toda a trajetória alimentar de uma criança.


Palavras-chave: introdução alimentar, aleitamento, estratégias.


Referências


Brasil. Ministério da Saúde. Guia alimentar para crianças menores de 2 anos. Brasília; 2002. Série A - Normas e Manuais Técnicos, n.107.


Daniels. L et al. Baby-Led Introduction do SolidS (BLISS) study: a randomised controlled trial of a baby-led approach to complementary feeding. BMC Pediatrics. 2015;15:179


Mozetic RM, Silva, SDC, Ganen AP. A importância da nutrição nos primeiros mil dias.


REAS, Revista Eletrônica Acervo Saúde, 2016. Vol. 8 (2), 876-884p. Rapley G, Murkett T. Baby‑led weaning: helping your baby to love good food. Reino Unido: Vermilion; 2008.


Brow A, Lee M. A descriptive study investigating the use and nature of baby‑led weaning in a UK sample of mothers. Matern Child Nutr. 2011;7:34‑47.

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